
A relação de Lito Sousa com o Palmeiras não começou nem terminou na arquibancada. O especialista em aviação mais conhecido do país, morto nesta quinta-feira aos 59 anos, tinha um projeto bem concreto com o clube do coração: queria usar o que sabia para tirar o medo de voar dos jogadores do elenco.
O homem que virou piloto aos 53
Lito passou mais de três décadas dentro da aviação antes de virar um nome conhecido fora dela. Formado em manutenção de aeronaves, trabalhou em companhias como Varig e United Airlines e, aos 53 anos, tirou o brevê — virou piloto depois de uma vida inteira cuidando do avião por baixo. O canal Aviões e Músicas nasceu dessa bagagem: explicar, em linguagem de quem conversa, por que turbulência não derruba avião.
Foi esse conhecimento que ele ofereceu ao Palmeiras. A ideia era desmistificar as situações que assustam quem viaja toda semana — e um elenco de futebol brasileiro voa muito, em horário ruim, muitas vezes logo depois de um jogo. Lito chegou a participar do podcast do clube para analisar o avião que a presidente Leila Pereira comprou para o transporte da delegação.
A virada de 2023 que ele usou para explicar a própria luta
Em 26 de agosto deste ano, dia em que o Palmeiras completou 112 anos, o telão do Nubank Parque exibiu um vídeo gravado por ele antes da partida contra o Santos, pelas quartas de final da Copa do Brasil. Já diagnosticado, Lito escolheu falar da doença pela única metáfora que todo palmeirense entende: lembrou a virada sobre o Botafogo em 2023 e disse que foi com o clube que aprendeu a nunca desistir.
Obrigado, Lito, pelo amor incondicional ao Verdão e pelo exemplo de perseverança que nos deixou. Siga torcendo por nós aí de cima
A resposta veio em campo e fora dele. O Palmeiras venceu o Santos por 3 a 0 e, na entrevista coletiva, Abel Ferreira pediu licença antes da primeira pergunta para dedicar a vitória a ele: “que Deus lhe possa dar toda a força que ele precisa, e que continue até ao fim, que não desista”. Nas redes, o treinador escreveu: “Todos somos um. Muita força neste momento”.
Por que esse caso não foi como os outros
Clube grande homenageia torcedor doente com alguma frequência, e quase sempre o gesto começa e termina no mesmo dia. O de Lito foi diferente por uma razão simples: ele tinha o que dar de volta. Não era só alguém pedindo força ao time — era alguém que oferecia um serviço técnico ao elenco, que entendia de um assunto do qual o clube depende toda semana e que falava a linguagem da torcida sem precisar de intermediário.
O diagnóstico de Creutzfeldt-Jakob veio em 21 de agosto, cinco dias antes do vídeo no telão, e pouco mais de um mês depois de um câncer de próstata descoberto em julho. Entre uma coisa e outra, ele continuou publicando, continuou explicando avião e continuou vestindo a camisa verde — inclusive no vídeo em que contou ao país que estava doente.
Lito deixa a mulher, Mila Seidl, e o filho Malone, de 7 anos.
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