
Antes de Ademir da Guia se tornar o Divino e comandar as Academias do Palmeiras, uma reportagem de A Gazeta Esportiva Ilustrada questionou se seu estilo funcionaria no futebol paulista. Preservadas no acervo histórico do Portal do Palestra, as páginas 8 e 9 de uma edição sem data visível chamavam o jovem de jogador de primeira categoria, mas tratavam sua classe e sua lentidão como obstáculos.
O recorte ganha força quando lido à distância. A mesma publicação que sugeriu uma volta ao Rio de Janeiro ou uma troca registrou, em outra página conservada no acervo, que Ademir havia vencido as desconfianças e se firmado entre os grandes jogadores do país. É a crítica esportiva capturada antes que a carreira desse sua resposta.

A chegada cercada pelo nome de Domingos da Guia
Ademir chegou ao Palmeiras em 1961, vindo do Bangu e carregando a referência inevitável do pai, Domingos da Guia. A reportagem começa justamente por essa herança. Recorda a trajetória do “Mestre” e apresenta o filho como uma revelação do futebol carioca que ainda precisava provar em São Paulo que a contratação não havia sido em vão.
A biografia de Ademir da Guia no Portal mostra o destino dessa história: o meia se transformaria em um dos maiores símbolos do clube. O interesse do recorte está no instante anterior, quando essa grandeza estava longe de ser consenso.
Quando a classe foi tratada como problema
O texto reconhecia o controle de bola, a precisão do passe e a capacidade de pensar o jogo. Ao mesmo tempo, dizia que o meia demorava a se adaptar a um futebol paulista descrito como mais corrido, físico e marcado pelo combate individual. A crítica aparece condensada no subtítulo “excesso de classe e de lentidão”.
Na página seguinte, a revista sustentava que Ademir poderia render melhor no futebol da Guanabara e sugeria que uma troca talvez fosse conveniente ao clube, ao jogador e à torcida. Hoje, o julgamento chama atenção porque toma características que seriam associadas à elegância e ao controle de ritmo do camisa 10 como sinais de incompatibilidade.

A ficha histórica de Ademir da Guia permite acompanhar o que o recorte ainda não podia enxergar. Em 1962, o meia disputou 28 partidas e marcou quatro gols. No ano seguinte, foram 38 jogos e seis gols em uma temporada que terminou com o Palmeiras campeão paulista.
A resposta apareceu no campo em 1963
A temporada de 1963 registra 64 partidas, 44 vitórias, 13 empates e apenas sete derrotas do Palmeiras. O time marcou 136 gols e conquistou o Campeonato Paulista, campanha que consolidou a Primeira Academia e ofereceu um novo contexto para avaliar o futebol de Ademir.
Outro recorte de A Gazeta Esportiva Ilustrada, na página 11 de uma edição cuja data também não aparece, já traz um tom oposto. A publicação afirma que Ademir havia se firmado e reproduz a avaliação de que ele fora “o maior de 1963”. A mudança não precisa ser tratada como contradição escondida: ela documenta como a percepção pública sobre um jogador pode mudar.
Da dúvida ao reconhecimento

Linha do tempo dos recortes
-
1961 Chegada ao Palmeiras Ademir da Guia deixa o Bangu e inicia sua trajetória no clube, ainda cercado pela comparação com o pai.
-
Início dos anos 1960 A crítica A Gazeta Esportiva Ilustrada reconhece sua categoria, mas questiona a lentidão e sugere que o futebol do Rio poderia favorecê-lo.
-
1963 A afirmação Ademir participa da campanha do título paulista, e um recorte posterior da própria revista registra o reconhecimento conquistado pelo meia.
A história de Ademir é frequentemente contada a partir das taças, dos jogos e da condição de ídolo. Os documentos do acervo acrescentam outro ângulo: mostram que a consagração não estava pronta na chegada. Ela foi construída enquanto jornalistas e torcedores tentavam compreender um jogador que não correspondia ao modelo de velocidade usado para julgá-lo.
Um documento sobre futebol e memória
As páginas não devem ser usadas para ridicularizar uma análise antiga com o conhecimento do presente. Seu valor está em revelar os critérios daquele debate: ritmo, força, adaptação regional e o peso de um sobrenome famoso. O que parecia lentidão para parte da imprensa se tornaria, na memória palmeirense, a calma de quem via o jogo antes dos outros.
Ao ligar os recortes à galeria histórica, às temporadas e à seleção de ídolos do Palmeiras, o Memorial Alviverde preserva tanto a consagração quanto o caminho até ela. Ademir não nasceu Divino aos olhos de todos. Foi o campo que transformou dúvida em reverência.
Esse percurso passa a integrar também a Enciclopédia Alviverde como uma leitura documental dos primeiros anos do maior camisa 10 da história do clube. O mesmo acervo de A Gazeta já havia devolvido ao Portal as imagens da vitória sobre o Santos em 1944 e a foto do segundo quadro campeão de 1928.
O que você achou?
0 reaçõesCrie sua conta grátis para reagir e comentar as matérias.






💬 Comentários
Seja o primeiro a comentar!
Entre na comunidade do Portal do Palestra para comentar.