
Há exatos 39 anos, em 29 de outubro de 1986, as arquibancadas do Estádio do Pacaembu testemunharam um dos momentos mais emblemáticos da história da Sociedade Esportiva Palmeiras. Durante um clássico contra o Santos, válido pelo Campeonato Brasileiro, a torcida alviverde, em um ato de ressignificação e orgulho, abraçou o apelido “Porco”, antes usado de forma pejorativa pelos rivais, e o transformou em um grito de guerra. Naquele dia, o canto “E dá-lhe Porco… E dá-lhe Porco… olê… olê… olê!” ecoou pela primeira vez, marcando o nascimento de um novo mascote.
A vitória por 1 a 0 sobre o time santista, com gol de Mirandinha, selou a data como um marco, mas a história por trás da adoção do mascote começou muito antes, a partir de uma ferida profunda com o maior rival.
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A Origem da Ofensa
O termo “porco” foi atribuído ao Palmeiras de forma depreciativa por quase duas décadas. O estopim ocorreu em 1969, após um trágico acidente de carro vitimar dois jogadores do Corinthians. A diretoria corintiana solicitou à Federação Paulista a inscrição de dois atletas substitutos fora do prazo, pedido que teve o apoio de todos os clubes, com exceção do Palmeiras. O então presidente do Corinthians, Wadih Helu, nos bastidores, classificou a atitude alviverde como “espírito de porco“.
A partir de então, o apelido foi adotado pelas torcidas adversárias como principal provocação. O xingamento ecoava nos estádios, e houve até mesmo episódios em que um porco de verdade foi solto no gramado do Morumbi antes de um Dérbi. A alcunha também carregava um tom xenofóbico, remetendo à origem italiana do clube e associando-a ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial.
A Virada Estratégica
No início dos anos 80, a diretoria do Palmeiras começou a perceber que a simples rejeição ao apelido não era eficaz. Em 1983, o então diretor de marketing do clube, João Roberto Gobbato, teve a visão audaciosa de transformar o insulto em um símbolo de força. A ideia, inicialmente, encontrou resistência de conselheiros mais conservadores, mas ganhou forte apoio entre as torcidas organizadas, que viram na proposta uma oportunidade de modernizar a identidade do clube e dar um golpe no preconceito.
A campanha foi ganhando força gradualmente. Torcidas passaram a comercializar porquinhos de porcelana, e a aceitação entre os torcedores mais jovens cresceu. O movimento culminou naquele 29 de outubro de 1986, quando os palmeirenses, de forma organizada e espontânea, assumiram o apelido e o transformaram em festa.
A Consolidação com Jorginho e a Imprensa
O passo seguinte para a imortalização do novo mascote veio poucas semanas depois, com um apoio fundamental da imprensa. A conceituada Revista Placar, em sua edição de novembro de 1986, estampou na capa o meia Jorginho Putinatti, um dos grandes ídolos daquela geração, segurando um porco no colo. A imagem icônica selou a adoção do apelido e o legitimou perante todo o Brasil, mostrando que o Palmeiras não apenas aceitava a alcunha, mas a ostentava com orgulho.
“Fiquei pensando se a torcida ia aceitar aquilo, mas gostaram e o apelido foi assumido pelos torcedores”, relembrou Jorginho em entrevista.
Oficialização e Legado
Apesar de ter sido abraçado pela torcida em 1986, o Porco só foi oficializado como segundo mascote do clube 30 anos depois, em 2016. Em uma cerimônia no Allianz Parque, o clube apresentou o mascote “Gobbato”, uma homenagem ao diretor de marketing que foi o mentor da transformadora iniciativa.
Hoje, o Porco convive harmoniosamente com o Periquito, primeiro mascote do clube. Ele está presente em cantos da torcida, em produtos licenciados e no imaginário de cada palmeirense, representando a capacidade de transformar a adversidade em força. A celebração dos 39 anos daquele grito no Pacaembu é a comemoração de um dos capítulos mais autênticos e passionais da rica história alviverde.
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