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Jogo e jogadores citados no texto
O terceiro gol do Palmeiras contra o Santos não mudou nada no placar. Já eram 2 a 0, o Santos já não levava perigo nenhum e o jogo estava resolvido. Mesmo assim, foi o lance que eu vou lembrar dessa noite — e não por causa de quem cabeceou.
Aos 16 minutos do segundo tempo, Agustín Giay ganhou uma dividida perto da linha de fundo, insistiu numa bola que já parecia do adversário e cruzou. Flaco López subiu e fez. Foi a primeira assistência do lateral argentino desde que ele chegou ao clube, em julho de 2024. São 94 jogos com a camisa alviverde. Nenhum gol até hoje.
Um número que a torcida sabia de cor
Não vou fingir que a cobrança era injusta. Um lateral-direito que passa dois anos sem participar diretamente de um gol é um problema de futebol, não de sorte, e quem reclamava tinha razão nos números. Giay chegou do San Lorenzo com expectativa alta, aos 20 anos, e passou a maior parte desse tempo dividindo posição, alternando entre a lateral e o terceiro zagueiro, ouvindo que não acrescentava nada no ataque.
O que me pega é a data. Essa assistência saiu justamente na noite em que o clube completou 112 anos e se despediu do Allan, vendido ao Manchester City. Antes da bola rolar, o próprio Abel Ferreira falou em números redondos: sai um por 40 milhões, é preciso arrumar outros 40 para repor. É assim que o Palmeiras se sustenta hoje, e não estou aqui para reclamar disso — é o modelo que paga a folha e o estádio.
O que o Palmeiras faz que quase ninguém faz
Mas tem uma coisa que esse mesmo Palmeiras faz e que quase nenhum clube brasileiro faz mais: ele espera.
Vale olhar a ficha do cara que fez os dois primeiros gols. Flaco López chegou em 2022 e fez dois gols em 14 jogos. No ano seguinte, oito em 41. Naquele momento, metade da internet queria devolver o argentino, e a outra metade discutia se ele era reserva do reserva. Hoje ele tem 78 gols pelo clube, foi artilheiro em duas temporadas seguidas e marcou duas vezes num clássico de mata-mata. Entre o Flaco de 2023 e o Flaco de agora não teve contratação nenhuma. Teve tempo.
Giay pode nunca virar o Flaco. Provavelmente não vai — são funções diferentes, e um cruzamento certo não apaga 94 jogos. Mas o clube que aguentou a fase ruim do centroavante é o mesmo que aguentou a do lateral, e um dos dois já pagou a conta com juros.
A paciência ficou cara
É aí que está a minha implicância. Quanto mais o Palmeiras acerta no mercado — e ele vem acertando muito, com Allan agora e com uma fila de vendas antes dele —, mais a régua sobe para quem ainda não rendeu. Um elenco montado para vender bem tende a ficar sem espaço para o jogador que precisa de dois anos. E é justamente esse jogador que apareceu ontem, no lance que fechou o clássico.
Não é romantismo. É cálculo: reposição custa 40 milhões, e paciência custa tempo. O Palmeiras é um dos poucos clubes do país que ainda pode escolher entre as duas coisas, e seria uma pena se ele desaprendesse a segunda justamente por estar bom demais na primeira.
O que sobra da noite
Sobra uma vantagem de três gols para levar à Vila Belmiro na quarta-feira, uma sequência de 20 finalizações contra sete e um goleiro que trabalhou uma vez em 90 minutos. Sobra também um time que resolveu cedo e conseguiu poupar cinco titulares antes do jogo com o Mirassol, no domingo. Nada disso é pouco.
Mas se você me perguntar o que eu levo de um 3 a 0 no aniversário do clube, eu levo o cruzamento do lateral que ninguém colocaria numa lista de vendas — e a lembrança de que, em 112 anos, esse clube foi construído mais por gente que demorou do que por gente que chegou pronta.
A ficha completa da partida, com escalações, gols e estatísticas, está na página do jogo.
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