
Me tornei sócio do Palmeiras no começo do século. Naquela época, meu falecido pai tinha proximidade com o diretor financeiro do clube, Durval Colossi. Foi ele quem insistiu — com firmeza e carinho — para que nos tornássemos membros oficiais do Verdão. E assim foi. Um gesto simples, que se transformaria em uma das memórias mais afetivas da minha vida.
O clube social de então não se parecia nem de longe com o que temos hoje. Era um ambiente desgastado, com estruturas envelhecidas e áreas deixadas de lado. A falta de zelo era visível. Mais que isso, simbólica. Lembro que, quando um chuveiro do vestiário quebrava, não se consertava — colocava-se uma placa: “Não terá manutenção, pois foi o associado quem estragou.” Um recado duro, quase hostil.
Mas, apesar de tudo, não era sobre piscina, quadras ou vestiários. Era sobre pertencimento.
O Bar Inglês
Perto da antiga Sala de Troféus, vibrante e carregada de história, existia o Bar Inglês. Um lugar discreto, meio escondido, mas com alma própria. Entrava-se por um corredor estreito, como se fosse preciso atravessar o passado para chegar até ali.
O carpete era vermelho, já gasto pelo tempo. Nas paredes, bancos de madeira robusta; no balcão, um garçom sempre atento — em especial o Horácio. Ele adorava o Programa do Jô e fazia questão de me mostrar fotos na plateia, orgulhoso da lembrança e do brilho nos olhos de quem tem um ídolo.
O cardápio era simples: bebidas quentes, cervejas diversas e apenas um petisco — amendoim. Nada além. E, para mim, não precisava de mais. Ali, não se ia para comer: ia-se para sentir.
O Bar Inglês era meu refúgio. Em tempos de seca esportiva, crises políticas e desânimo, ele era um abraço silencioso. Uma espécie de resistência afetiva, onde o Palmeiras permanecia inteiro — mesmo quando o campo dizia o contrário.
A Conversa com Américo Faria
Foi ali, em uma tarde comum, que vivi um encontro que nunca esqueci.
Eu tomava minha cerveja gelada, com o pote de amendoim fiel ao lado, quando entrou Américo Faria, então diretor de futebol do Palmeiras. Ele se sentou próximo, pediu sua cerveja e ficou em silêncio por alguns segundos. Era impossível não puxar conversa — no Bar Inglês, ninguém era exatamente anônimo.
Perguntei sobre a função que exercia. Ele respirou fundo antes de responder:
— “É uma profissão solitária e sorrateira. Se o time ganha, poucos te lembram. Se perde, todos lembram de você.”
Havia mágoa ali. Peso. Cansaço.
Perguntei sobre Edmundo, que na época era assunto quente entre os torcedores. Ele foi categórico:
— “Não tem como pagar. É caro demais. Os salários não fecham.”
Anos depois, Edmundo voltaria. E seria protagonista. As voltas que o futebol dá — e como elas doem para quem administra no presente.
Quando ele saiu, permaneci sentado por longos minutos. Olhando o carpete vermelho. O pensamento era simples e dolorido:
Como pode um clube tão amado estar tão desalinhado de si mesmo?
Entre o Passado e a Mudança
A oposição começava a se movimentar para tirar Mustafá Contursi do poder. Mas ele parecia absoluto. Controlava mentes, decisões e destinos. O Palmeiras não disputava títulos — apenas participava. Era sobrevivência, não ambição.
Para muitos, aquilo foi motivo de desistência. Para mim, não.
Foi um chamado.
Sofrer pelo Palmeiras é também amar com mais profundidade.
Saudade do Bar Inglês
Hoje, quando passo pelo clube renovado, moderno e vibrante, sinto orgulho. Vejo conquistas, estrutura, grandeza.
Mas dentro de mim, existe um espaço que pertence ao Bar Inglês.
Ao cheiro do carpete.
À cerveja mais gelada que já bebi.
Ao amendoim sem glamour.
Ao Horácio e suas fotos do Jô.
À fala amarga de Américo.
À esperança que eu guardava no peito.
O Bar Inglês era o Palmeiras da minha formação emocional.
Era o lugar onde eu entendia, em silêncio, que amar o Verdão é fidelidade — sobretudo nos tempos difíceis.
E é dessa memória que nasce minha saudade mais bonita.
Que nunca nos falte Palmeiras.
E que, vez ou outra, dentro de nós, ainda exista um Bar Inglês.
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